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Alguns fragmentos de Heráclito revelados pela Anarqueologia recente

Nem só de 126 fragmentos vive nossa memória de Heráclito. O homem fragmentou muito mais, ainda que a harmonia visível daqueles primeiros 126 pedaços pareça superior a qualquer harmonia invisível de fragmentos perdidos pelas gavetas de filósofos cheios de segredos. É que Heráclito não quis mais saber de Efesos depois que a cidade expulsou Hermodoro. Aproveitou e seguiu o melhor homem – que nunca havia entrado no mesmo mar duas vezes – para o norte e chegaram a Assos de onde contemplavam Lesbos, a ilha de Sapho trêmula onde deitaram em umas ondas ofegantes. Ali, naquela praia sempre cheia de turcos e espreguiçadeiras e onde começaram a esfregar physis e nous, Heráclito começou a largar mais fragmentos. Houve um dia em que ele encontrou uma turista remota e enviou seus alfarrábios para um lugar seco que umedece. Ela lhe prometeu que iria para o cerrado ao redor de Brasília, guardá-los em uma casa em cima de uma árvore. Com as escavações arqueológicas promovidas pela tentativa de construir o setor noroeste da cidade, os fragmentos foram encontrados. O Instituto de Patrimônio Heraclítico assegurou que o texto é completamente espúrio, que não tem valor arqueológico algum – seria uma mera invenção de uns poucos intérpretes de Heráclito que nem sequer formam uma tribo. Vejam vocês:


127. Nem só de esconder-se brinca a natureza. Também sopra balões, reúne-se em rodinhas de briga de galo, come chocolates e procura recantos secretos para deitar-se com o logos. Diz-me muito mal das tais leis que ultimamente todos lhe atribuem: diz que elas estão cheias de casuísmos e foram outorgadas por alguém que nunca sentiu o ar aquecido pelas patas das joaninhas que andarilham nos fins de primavera. São leis que ninguém consegue cumprir. Lei é persuadir-se a vontade de um só (fr. 33). A natureza gosta de espalhar as vontades, de contrapor as forças, de ver o que acontece à ordem quando ela é posta em um campo de refugiados. Li um fragmento contemporâneo que diz que a natureza gosta de re-embaralhar as perguntas, para que ninguém lhe responda de uma vez por todas. Ela não faz nada de uma vez por todas – gosta de refazer, e de burilar, de retocar e de por tudo a perder refazendo todos os entes com areia molhada e os dispondo na beira do mar.

Alguns trechos que se seguem testemunham a influência de filósofos de Crátilo a Deleuze sobre Heráclito. Heráclito começou peregrinando pela Jônia:

128. Em verdade, não deixamos de entrar duas vezes no mesmo rio como anteriormente afirmei (fr.91), mas não entramos sequer uma única vez. As águas nunca são as mesmas. Crátilo viu bem que uma vez já é vez demais. Aquilo que permanece fixo, é mundo embalsamado – sem o risco do político não há o que fique na natureza. Crátilo dizia que a água que chega a planta do pé não é a mesma que chega ao calcanhar. Digo mais e sempre mais: sob qualquer coisa que flua pode se encontrar outras coisas que fluem. E nem sequer a água que molha a planta do pé é a mesma. Nem a mesma gota, nem o mesmo pingo. Nem a mesma enxurrada.

Heráclito, depois da Jônia, parece que esteve mesmo em Agrigento, no coração da que é eleata, e andou pelos rochedos perto do mar respirando e inspirando Empédocles. Sobraram uns fragmentos:

129. De tudo decorrem emanações. Cabelos emanam, folhas emanam. Empédocles já foi planta e pássaro, moço e moça, pois sabia que nada cauteriza o polemos. Nem se controla o esplendor das vinganças subreptícias substituindo florestas por jardins. A discórdia não pára nem com liminar da justiça.

130. De todas as partes pode provir o rompimento, tudo pode irromper; as conspirações são os sopros e as respirações das coisas. As unidades se quebram, mas nem é que no limite da quebradeira encontramos algum constituinte atômico: é feito de fugas o que há. Cada parte, desde o mais miúdo até às constelações amontoadas, carrega a potência do rompimento. […] E nem sequer é o polemos alguma matéria-prima, qualquer matéria pode trair sua prima.

144. Os homens, para alcançarem o logos deveriam tornar-se like rolling stones.

163. Somente os que se escondem bem podem se poupar dos aborrecimentos da lei (…) mesmo a natureza busca se esconder das leis que lhe são atribuídas.

164. A virtude é para um homem o seu demônio.

165. O conflito envolve todas as coisas na problematização na mesma medida em que faz-se escutar enquanto lógos e se roçar enquanto natureza.

166. As crianças são as mais espertas ainda que tratadas como retardadas, enquanto os homens são os mais retardados ainda que tratados como os mais espertos.

167. O demoníaco é para o homem uma virtude.

168. Physis não começa – apenas acelera de vez em quando e em alguns lugares. […] explosões, demiurgos esculpem em diferenças de velocidade, não precisam de começos, precisam de meandros.

169. Ouvi muitos falarem de idealismos, de realismos. (Parece que as pessoas inventaram alguma coisa e nela colocaram seus pensamentos e deles retiraram toda natureza. Depois se perguntam se não é apenas uma criação dos pensamentos a natureza.) Ambos existem por toda parte. Para a lua, as marés são não mais que sua criação. As coisas fixas ficam fixas para quem se move mais rápido. Todas as coisas são criadoras de realidades. E todas encontram algumas outras prontas: não, nunca prontas, apenas suficientemente estagnadas. Tais disputas são o que aprendemos se tratar de uma espécie de efeito Doppler metafísico. As coisas se passam, mas apenas se estamos parados diante delas.

7uem, e com velocidades diferentes. Coisas fixas são fluxos lentos, coisas móveis são fluxos rápidos. É feito de diferença de velocidade o [contraste entre o] chão que pisamos e fincamos certezas e o vento que espalha tudo. De diferença de velocidade é feito o que produz em nós nossos corpos e o que produz em nós nossos pensamentos.

171. […] como aquilo que ouvimos, aquilo que vemos, cheiramos, sentimos com a pele só aparece com o auxílio do que lhe faz as fronteiras se conectam por todos os lados – não há conexão que seja fixa, todas as cercanias de uma determinação com ela interagem e todas elas se animam por meio dela. Se pensássemos na mesma velocidade daquilo que pensamos, já não distinguiríamos nada. Apenas porque as possibilidades têm como alvo tipos fixos de coisas é que vivemos entre circunstâncias fixas.

172. Vemos coisas fixas por onde [porque] se derramam possibilidades.

173. A physis é a educação das pessoas e é a força que elas herdam de seu povo. É ela que faz o novo fazendo de novo.

O fragmento seguinte é bastante suspeito – foi preservado em várias bocas repetidas vezes pelo litoral potiguar. Mas é claro que Heráclito nunca passou por ali e que as pessoas querem dizer, com o controvertido fragmento 184, alguma coisa que não tem nada a ver com o polemos:

174. […] é luta, irmão.

195. Dis-posições são velocidades que diferem.


196. […] das diferenças, as coisas (por sua vez, sempre diferentes também para si mesmas).

197. Com que alegria pude, enfim, encontrar […] falando com filósofos, alcoólatras, […] e antropólogos desconfiados de si. Ele bem entendeu que a diferença não precisa ser um âmbito negativo que se opõe a uma identidade. As coisas são o acontecimento das diferenças. Diferenças que não são arché – quem pode deter a diferença sem corrompê-la?


198. An-arché: não-princípio, mas também não-negação-do-princípio. Um “entre”: ponte sem margens. Há muitos princípios – mas também eles se encontram no mesmo plano. O polemos pare começos. Desde que há armas de fogo por toda parte, quem pertence à humanidade sente que possui uma dignidade de quem impera sobre o mundo – distribui ordem, cerimônia e compaixão. Nenhum império dura porque há sempre outros começos. Não vivemos à sombra de uma arché que, como um relojoeiro perfeito, fez um princípio para acabar com todos os outros princípios – estamos em disputa. Os vermes, os vírus, as baratas e os ratos não se renderam diante da proclamação de vitória humana sobre a animália. Também nossos lapsos, nossos gestos miúdos, os arrabaldes do pensamento ainda resistem ao princípio de humanização do mundo que impomos desde o princípio a quem nasce gente.

199. Escuto falar bastante da natureza como um baú de coisas prontas – como se a ecologia tivesse expulsado a physis. O discurso ecológico é também um discurso imperial – proteger as baleias, e nós decidimos quantas? (Quantos lobos devem continuar existindo? E quantos micos? Quantos pandas? Mas quantos ratos? Quantas baratas? E quais?). A ordem ecológica é uma ordem imperial – em nome de um equilíbrio archétípico. Uma ordem imperial, e não um mandato despótico. Muitas partes do que tanto se chama de natureza des-põe o equilíbrio ecológico. Ao invés da physis, a oikos – a casa que precisa estar arrumada, a casa que tem uma maneira de estar arrumada, que foi feita para estar arrumada. Uma oikos logia, uma oikos nomia: haverá uma mão invisível pairando acima de todas as coisas, capaz de criar, de balancear, de regular tudo. Nós apenas podemos dar uma mãozinha a essa mão de ferro invisível. Em um império ecológico podemos nos sentar ao lado da natureza, transmitir suas leis e atuar assim como um vizir. Entabulamos uma ordem secreta superior e, como os sacerdotes, temos um selo de aprovação dos céus. […]

200. […] Nada fica.

201. Algumas coisas fincam outras para poderem passar. A impressão de que as coisas ficam em algum posto é descendente da impressão de que as coisas turbulentas surgiram de águas estagnadas. Temos que nos esforçar para aquietar as turbulências. Nem há um andar de cima em que tudo fica subserviente seguindo ordens; não há um grande plano acima dos acontecimentos esbarrados. Um rato podia ter comido um outro pedaço de queijo, mas esbarrou na ratoeira e ficou enjaulado. Perdeu – mas seus vermes ainda continuam na batalha dos operários das ruínas. Eles também roem e também fazem parte da disputa.

202. Caçamos os animais, mas não os vermes dentro deles – nunca comemos do mesmo prato duas vezes. Há pó, mas dentro do pó há distúrbios e conclamações. Só pode haver um tipo de átomos: capacidades de responder ao polemos com mais polemos. Me disseram que eu vou retornar ao pó, eu perguntei: que pó?

203. Deixando em algum lado nossa vontade de lutar, nem podemos pensar que as bactérias e os vírus detratores dos nossos corpos valem mais mortos que vivos. Eles conspiram, nós conspiramos. Nós espiamos, eles expiam. Travamos uma batalha com um exército que se move em outra velocidade; contra-ataca, mas por vezes anos mais tarde e por apenas um segundo. Erramos na mira porque só podemos nos fixar em quem tem uma velocidade mais ou menos como a nossa. Muitas vezes importa apenas que o exército fique entrincheirado por tempo suficiente. Nem há um só exército – o polemos é travado por mercenários, desertores, iluminados.

204. Para nós, para nós, do nosso ponto de vista. Assim me dizem muitas vezes hoje em dia. E digo: as coisas também permitem que sejam vistas assim. Mas muitas pessoas se preocupam em como são as coisas, querendo se preocupar em como as veriam se pudessem ver não sei de onde. Não se preocupam em como as coisas permitem que sejam vistas. Se estamos em um exercício de voyerismo das coisas (mesmas), como parece que tanta gente anda pensando, essas coisas também agem decidindo o que permitem que seja visto. Elas estão em uma sala de onde as vemos, mas elas estão fazendo um peep-show. Elas decidem como as vemos – e vão para casa depois do horário de trabalho.

205. An-arché: não há destino, mas há destinos. Melhor seria pensar nas coisas como emaranhadas em muitas tramas que se enlaçam, uma deságua na outra – um delta de histórias que se misturam, se espelham e se confundem. Como descer um rio inteiro sem fazer barulho (fr. 193), quando não resistimos, nossas histórias perdem sua pureza, largam seu destino. Mas não largam totalmente porque confundir-se com alguma coisa não é submeter-se a ela. Quando damos nomes a nós mesmos (como empregado explorado, puta da esquina, velho fanfarrão, esposa exemplar, mãe de três rapazes) gravamos nosso destino em bronze e fazemos barulho no rio quando nos arrastam para longe dele. É que muitas vezes nos confortamos com termos um destino; não queremos outros. Trancamos as portas, as janelas e só respiramos o nosso próprio ar. E o polemos não pode ser prendido, apreendido, compreendido, repreendido. Nem podemos surpreendê-lo deixando-o ao relento do lado de fora do nosso confortável destino. Ele invade o cafofo.

206. Ter destinos não é ainda projetar futuros, ou ter esperanças. Tudo está cheio de destinos de tornar-se diferentes coisas – mas esses devires são futuros do presente. O polemos é feito da culatra; dos tiros que escapam para outra parte. Projetamos futuros quando estagnamos alguma coisa para que alguma caravana passe. Arrumamos a casa. E eu já vi que as pipetas dos laboratórios também trincam quando há terremotos.

207. Eros é eris, eris é polemos. Eris nao é só combate, é disponibilidade – a compulsão a tornar partes de si disponíveis. Disponíveis: a força centrífuga que impele a fragmentação das partes que estão coladas; uma força que pode ter a mesma intensidade e aceleração que a força centrípeta de coesão – a tensão do connatus. A força de fragmentação tem a direção oposta e raramente tem a mesma velocidade. Muitas vezes não vemos a ação do ímpeto de fragmentar porque procuramos ingredientes no mundo. Os ingredientes são peças que não se fragmentam e que apenas compõem. O mundo não é feito de ingredientes – é jogo de armar que nunca está armado e nunca está em pedaços. [Tudo se] desintegra, desinfla, solta ares.

(Tanatos)

208. Eris é a força de desindividualização: colocar-se a disposição. Wesendammerung. Os modernos, tão encantados com a idéia de autoridade integral, preferem olhar para as partes conscientes que são as que submetem outras e procura retê-las submissas. Dizem: meu corpo está a minha disposição. Os corpos sempre estão à disposição, mas as disposições não tem dono.

209. Encontrei uma sábia mulher, a mãe de Lautréamont: nunca ria dos uivos dos cães, eles querem o infinito, como todos os humanos de cara achatada – apenas olhe para você mesmo neles. [Seu filho] dizia […] que as sombras passeiam nos campos amarelos nos fins de tarde, contra os campos, contra as montanhas, contra a coruja, contra as crepúsculo, a lua e as estrelas; o infinito é uma ânsia contrária as coisas, contrária aos limites das coisas – mas é uma ânsia: uma ânsia de espalhamento.

210. Tudo se conecta a tudo – mas não há tudo.

215. A política ama esconder-se em moitas de natureza. Natureza não é physis, natureza é moita, physis é vendaval.

217. (…) afundar os pés na terra úmida até umedecer, sem lamento, o fogo que arde dentro.

218. Sempre gostei do modo como o céu imenso desampara as paisagens da terra. É o abandono extasiado de um céu sem deus: an-arché.


225. O polemos é demoníaco enquanto cinde e divide, rompendo com a estrutura estabelecida das coisas. Todavia, ao contrário do que se poderia pensar, o polemos não é o princípio das revoluções. As revoluções, em nome do polemos, traem o polemos empunhando as suas bandeiras. Mas o polemos nem chora.

231. E o que quer o polemos? Absolutamente nada. E o que queremos nós do polemos? Nada!

236. Sim, levantem as suas bandeiras! Gritem em todos os cantos do mundo as suas certezas! Defendam as suas filosofias! Tudo ficará bem, porque nada fica.

237. O polemos é tudo que há? Não! O polemos é o que há no meio de tudo.

248. O abuso é preciso disseminar como um incêndio.

249. A discórdia não é princípio para revoluções, ela é revolução.

263. Também estamos perpassados de physis quando encontramos alguma coisa, quando buscamos o oculto, quando descobrimos e quando revelamos. A physis está no desvelamento. Ela não habita nas coisas prontas, no que já foi desvelado e nem no que está a disposição para ser desvelado. Não importa o castelo que fica na areia, mas os grãos de areia que ficaram colados uns nos outros. Ao invés de seres, devíamos falar de retorceres.

264. O polemos se expõe pelas coisas nas cordas bambas. Ele as sacode e as esculhamba.

265. O polemos é arauto de uma an-arché: ele é simbólico, e é diabólico. Junta e separa. E me falam do mobiliário do mundo. Sim, mobiliário: os túneis secretos por baixo das grades das prisões e os túneis secretos por baixo dos túneis secretos das prisões. Não há prisão de segurança máxima. […] debaixo da pedra havia um caminho.

266. O polemos também dorme.


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