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O script da largada do An-Archai

Como pode ser uma ontologia desgovernada? Tramas, paisagens, fugas e interações

(Notícias da gestação do An-Archai)

Hilan Bensusan

1. A história da ontologia no ocidente parece ser uma história de uma busca por uma imagem final – uma imagem total, capaz de englobar tudo e que se pareça com uma lista de ingredientes para qualquer receita. A imagem de uma tabela periódica de substâncias, propriedades, eventos e estados de coisa. Uma imagem: alguma coisa que é contemplável, visível – uma paisagem que poderia ser vista de alguma parte. Uma imagem fundadora do que aparece de forma nublada aos olhos desavisados. Um mundo de arquétipos que pudesse ser visível; desde algum ponto de vista especial; e a ontologia nos leva a este lugar. O pensamento, em ontologia, se orientou pela busca de uma ordem por trás do caos; talvez por isso, a preocupação ontológica se concentrou em buscar categorias e classes de entes – a filosofia do que existe tem seu foco em um esforço de almoxarife: uma tipologia das coisas. Tratava-se de encontrar uma lógica de funcionamento do mundo, uma arché que poderia ser perscrutada a priori, pois haveria que haver pistas em nossa cabeça acerca de como o mundo, em última instância, necessariamente está articulado. Uma mathesis universalis que estivesse em vigor pelo menos entre as coisas naturais, passíveis de serem calculadas. Uma arché descoberta carrega por vezes um elemento normativo: sabendo como é a natureza, podemos determinar o que está contra a natureza. O almoxarife se torna xerife. Esquadrinhamos o mundo e, em seguida, enquadramos as coisas.

O desconforto com uma arché do mundo apareceu sob várias formas na filosofia, entre elas na forma de um apelo por um espaço para nossa soberania. Há que haver uma província em que a arché não determina: um espaço de liberdade. O ataque humeano a uma metafísica com conexões necessárias pode ser visto como uma reserva de espaço para a atividade soberana dos nossos poderes, dos nossos hábitos, das nossas capacidades. Talvez então pouco ou nada importe como é o mundo, importa mais o que fazemos com ele, o que construímos com essa matéria-prima.

Uma alternativa é ir ao cerne da questão da arché do mundo e perguntar se o pensamento ontológico não foi vítima de uma estagnação da imaginação que o fez entender sua tarefa como a de encontrar a ordem fixa de uma paisagem final. O movimento tem antecedentes: Nietzsche procurou apresentar um mundo de forças, de intensidades, de potências e de singularidades múltiplas; inspirados por ele, surgiram ontologias em que o foco não é encontrar a ordem como único meio de ordenar-se pelo caos. Ontologias não-convencionais são aquelas que, de alguma maneira, colocam em questão a tarefa de apresentar uma paisagem final do mundo – sem abrir mão de fazer ontologia. E, nesse processo, suspeitam de algumas idéias norteadoras do ofício da ontologia:

  1. Uma ontologia pode ser feita de uma vez por todas – a ontologia pode estar em construção, não é só o que não é natural que é inacabado.
  2. Ontologias são feitas em filosofia – a ontologia é importante demais para depender do crivo de quem faz filosofia; ela é tocada por passagens de romances, por relatos de animais em seus nichos, por entre-gestos de danças, por gritos em passeatas.
  3. Uma ontologia pode ser feita a priori – não sendo uma imagem final, ela é uma imagem de quem está no meio das coisas.
  4. Uma ontologia é uma imagem do mundo (uma paisagem) – ela pode ter outras formas, pode ser feita de tramas, pode ser uma reportagem de alguma an-arché.

2. A primeira vez que dei de cara toda com as capacidades fascistas de algumas ontologias foi quando tentava encontrar uma maneira do pensamento estar em contato com singularidades. Uma ontologia de singularidades poderia ser uma ontologia avessa a totalidades, uma ontologia em que as singularidades carregassem seu destino mas nenhum destino geral transcendente estivesse traçado – era preciso que fosse uma ontologia do que não fica em parte alguma traçado ou pré-figurado, uma ontologia sem cabimento. Era preciso que não houvesse cabimento para que as singularidades não terminassem sendo um decalque, uma forma pré-figurada fixa como uma matéria prima – era preciso que as singularidades não fossem apenas ingredientes atômicos de um bolo. Foi então que eu pensei nas 7 recomendações de Foucault no prefácio da edição americana do Anti-Édipo e recomendei uma ontologia não-fascista:

  1. Libere a ontologia do peso de ter pretensões unitárias e totalizantes. Nem sequer um princípio de fuga ou de insurreição pode ter esse caráter – interessa o que surpreende e não o que fica compreendido. Mesmo o polemos, o atrito e o embate entre as todas as coisas, não alcança tudo, o polemos também tem seus perigos de formar ordem estabelecida. A ontologia não é sobre o que prende uma coisa na outra, mas sobre o que consegue deixar as coisas soltas.
  2. Considere que a ontologia é proliferativa e não-hierárquica; que ela é composta por relações entre potencias ao invés de camadas de dominação.

A ontologia é geradora, é aberta. Trata-se de uma atitude darwinista com respeito a todas as coisas: não há espécies fixas e nem regras de geração que são independentes do meio em que as coisas se encontrem. Trata-se de um não-criacionismo ontológico que não é senão um pluricriacionismo, as coisas são criadas a partir do que já foi criado, as coisas são criadas a partir do que já há e são temperadas por elas. O polemos é pai de todas as coisas, não deus de todas as coisas.

3. Permita que as categorias ontológicas possam ser elas mesmas nômades.

As categorias são transitórias, categorias não são observadoras do mundo, nem organizadoras dele, mas são antes partes do mundo, a serem postas em questão tanto quanto qualquer outra.

4. A ontologia não precisa ser parcimoniosa para ser aceita – não precisa ser desértica para ter valor; o supérfluo é a marca das possibilidades – que algo bóie sobre o que flui é uma ponta de potência para composição (a navalha de Ockham muitas vezes decepa).

O supérfluo é uma marca do desajuste das coisas as categorias prontas – aprontadas por nós, aprontadas pelo mundo. Toda sublevação começa com o que sobra, com o que não cabe direito, com o excesso.

5. O pensamento é, de algum modo, parte da ontologia e não o seu pastor.

O pensamento não instaura uma outra ordem, uma torre de controle. Ele está in media res, misturado com corpos e sujeito a perspectivas. O pensamento é um dos elementos que categoriza o mundo – deixando de lado o que não tem cabimento. Mas também o pensamento pode encontrar uma política que olhe para o que sobra e não para o que cabe.

6. Qualquer singularidade pode se tornar uma ordem estabelecida (um decalque), considere as singularidades como transitórias.

Não só as categorias, mas também as singularidades são transitórias, não são matérias primas, são antes tropas de rebelião, unidades insurgentes. Um caso de singularidade fixa pode ser encontrado quando consideramos indivíduos, unidades prontas que obliteram outras singularidades sub-individuais e supra-individuais como momentos, forças, capacidades, acontecimentos ou alianças. Singularidades não são sempre indivíduos (ou mesmo pessoas) já que a noção de indivíduo pode ser aquilo que conforma as singularidades a um padrão – elas só ficam aparentes se adquirirem a forma previamente estabelecida de indivíduos. A individuação, feita por um molde ou um decalque, pode atuar como um universal em contraste com as singularidades multiformes. A dificuldade de pensar singularidades pode ser apresentada assim: pensá-las não é jamais pensar em alguma coisa em geral.

7. Não se apegue ao que é possível dominar (ou compreender) – a ontologia não precisa ser formada por domínios.

Anarquia ontológica é um mundo não pré-figurável: um mundo que experimenta. Um mundo que tenta e erra.

3. Depois do E&E, meu foco foi parar ainda mais na ontologia, menos na relação do pensamento com ela já que o pensamento não é o seu pastor. E parece que a ontologia se tornou de muitas formas entrelaçada na política – a política que começa depois da ontologia é a política que separa ontologia de disputa e reserva a disputa para nós, em algum sentido aqueles que não estão prontos (pelo menos por enquanto). Tentei defender uma política mais perto da ontologia, menos perto da antropologia e menos confinada a nossa espécie na Espanha;

n Con frecuencia consideramos al mundo como situado más allá del alcance de la política. Es un mundo lleno de determinaciones. A menudo es, hasta cierto punto, un mundo humeano de regularidades, de leyes, de singularidades inanimadas.

n Tal mundo puede verse como un mundo de sumisión, de obediencia, de pasividad. Y podemos empezar a considerar la política que guía nuestros postulados metafísicos (o la erótica que los guía).

n Nuestra concepción puede así tener un impacto en cómo son las cosas si permitimos que las singularidades tengan poderes para resistir y escapar el orden establecido. Si nos movemos en la dirección de una ontología de poderes y potencias en lugar de propiedades y leyes descubrimos el potencial político de la naturaleza, más allá de nuestros pensamientos.

n La ontología precedida por la política: por un polemos, por los poderes en conflicto, por devenires inmanentes, por una actitud lévinasiana hacia el otro, etc. El situar a la política delante de la ontología (o junto a ella) nos puede llevar más lejos que situarla delante de la epistemología: puede darnos paleopolítica (la política de la constitución de los individuos, como en La genealogía de la moral de Nietzsche), fisiopolítica (la política de las fuerzas que mueven la evolución de las especies), ontopolítica. [Uma aproximação entre a evolução das espécies e a política me interessa a um certo tempo – e também um darwinismo generalizado contra uma concepção ontológica criacionista e de espécies fixas.)

n El propio mobiliario del universo se pone en cuestión. Hay lucha política en la interacción entre las cosas, en la evolución de las especies, en la fricción entre deseos, en la expansión de la ecología de las creencias, etc., y ahora el pensamiento no es más que una parte (una parte de la política, una parte de la ontología).

A política precede qualquer ontologia?

Sim, ovos políticos precedem galinhas ontológicas

Sim, ontologias se fazem com porções de polemos

Não, o polemos é um (an-)arché ontológico

Não, política é psicologia do universo (e feita de ontologia)

Sim e não, há um eterno retorno da política na ontologia

Sim e não, ontologia é política vista do alto da torre de controle

4.Em seguida estive pronto para ver como uma ontologia de tramas se distingue de uma busca de paisagens. Pensei que as fugas que faziam parte da ontologia em E&E podiam ser entendas em termos de capacidades, potências, disposições. Mas que, se fazemos isso, flertamos com a idéia de que uma paisagem final, pelo menos em princípio, pode ser vislumbrada.

As tramas se distinguem das paisagens. Por exemplo, quando encontramos a nós pastoreando diferenças em nossos atos e em nosso pensamento, não precisamos mostrar que instauramos a diferença por meio de nossas capacidades, mas que elas de alguma maneira aparecem para nós como um sintoma do mundo que nos circunda. Pensar a ontologia a partir das diferenças, e não das identidades, é uma maneira de expandir a imaginação ontológica. A imaginação ontológica – e a filosofia em torno dela – pode se libertar da imagem de que a ontologia é feita de paisagens, de figurações prontas que precisam ser desveladas – de que aquilo que é está pronto (ainda que seja feito do que nunca está pronto). Assim, por exemplo, a singularidade não precisa ser pensada em termos de uma unidade do mundo – um componente, como uma montanha que compõe a paisagem. Quando falo de uma singularidade em fuga, tento me valer do recurso de pensar singularidades dentro de uma trama, elas escapam de um território, se tornam exemplos, ou se intrometem como exceção, mas há movimentos que são antes dramáticos que temporais – não podemos considerar a singularidade sem considerar sua trajetória. Talvez um exemplo demasiado simplificador da minha distinção entre ontologia de paisagens e ontologia de tramas possa ser o contraste entre duas maneiras de entender o que é uma linha reta, a segunda das quais endossada por Spinoza: podemos entender uma linha reta como um conjunto de pontos alinhados ou podemos entendê-la como um ponto em movimento. Note que na imaginação geométrica de Spinoza, a linha reta não se tornou um objeto físico – ela continua sendo um objeto geométrico –, mas um drama constituinte foi invocado. Um drama assim é quase como uma ordem lógica em oposição à ordem temporal, mas aqui não importa tanto a ordem e antes o percurso. A ontologia de tramas pode ser o que fazia com que Deleuze encontrasse na literatura (e no cinema) algumas forças que importavam para fazer sua ontologia. A trama não se reduz às paisagens: a atenção ao que inventam os movimentos não pode ser substituída por nenhum inventário.

5. Também as exceções tem um espaço – nao reduzido a categorias de outros entes – em uma ontologia desgovernada. Podemos descrever as coisas por meio das categorias em que elas se encaixam, e podemos olhar para os rabos das curvas normais. Podemos perceber por quantos trizes uma coisa cabe em uma categoria – caber o suficiente provavelmente é o que nos basta, ser suficientemente homem, mulher, ser suficientemente rosa ou azul, concreto ou abstrato. Mesmo que o pensamento precise de categorias, elas deixam rastros do que escapa. Talvez o que escapa merece um espaço na ontologia. Talvez desvio seja notado apenas de soslaio – a atenção ao anarché das coisas é a atenção a sua capacidade de fugir, de sublevar, de indisciplinar. Talvez a ontologia possa apenas ser feita com o rabo do pensamento – sem os olhos fixos. É a atenção ao rabo da curva, ao que não tem cabimento, ao que não está (ainda?) pronto para ser pensado – uma ontologia anárquica é uma ontologia a contrapelo dos nossos conceitos, o avesso de uma metafísica descritiva, não é sobre o que é subserviente ao nossos conceitos, mas sobre o que é se insurge contra eles: pensar a partir da insurgência, e não da ordem. Pensar por trizes e não por matrizes.

Assim como as fugas e as exceções, também as interações podem estar no mundo. Um movimento interativista começou recentemente a sair a luz, inspirada no funcionamento distribuído de computadores e na idéia de que interações não precisam ser reduzidas a seus membros. A inspiração primeira vem de Heráclito: um mundo sem ingredientes fixos.

Uma ontologia desgovernada tem também elementos de potências, de disposições, de capacidades. Disposições como interações – CPDs, holism without wholes. (…) Um mosaico de imãs, nem mosaico com toda a soltura das peças (contingência das posições) nem um quebra-cabeças onde cada peça pede outra.

6.Termino com um pouco da inspiração trazida por novos fragmentos anarchaicos de Heráclito:

127. Nem só de esconder-se brinca a natureza. Também sopra balões, reune-se em rodinhas de briga de galo, come chocolates e procura recantos secretos para deitar-se com o logos. Diz-me muito mal das tais leis que ultimamente todos lhe atribuem: diz que elas estão cheias de casuísmos e foram outorgadas por alguém que nunca sentiu o ar aquecido pelas patas das joaninhas que andarilham nos fins de primavera. São leis que ninguém consegue cumprir. Lei, como eu disse no já meu fragmento 33 de saudosa memória, é persuadir-se a vontade de um só. A natureza gosta de espalhar as vontades, de contrapor as forças, de ver o que acontece à ordem quando ela é posta em um campo de refugiados. Li um fragmento contemporâneo que diz que a natureza gosta de re-embaralhar as perguntas, para que ninguém lhe responda de uma vez por todas. Ela não faz nada de uma vez por todas – gosta de refazer, e de burilar, de retocar e de por tudo a perder refazendo todos os entes com areia molhada e os dispondo na beira do mar.

144. Os homens, para alcançarem o logos deveriam tornar-se like rolling stones.

145. O polemos, a partir da sua original leitura como dis-posição, define uma micropolítica dos des-locamentos. O modo de ser das coisas não é algo dado, uma substância, um ser, mas dis-posições polêmicas que, em seus pequenos e constantes des-locamentos, tecem a sua micropolítica. Wesendammerung?

156. Nunca compreendi porque traduzem physis por “natureza”(embora eu mesmo, um tanto confuso, tenha assumido essa interpretação uma ou outra vez). A partir de tal interpretação, o meu fragmento 123 é comumente lido assim: ”a natureza ama esconder-se”. Mas como poderia a natureza esconder-se? – pergunto atônito. A natureza está aí, e a ciência a incomoda constantemente com os seus dedos curiosos e impertinentes. Physis é bem outra coisa. Gosto particularmente daquela sugestão de Heidegger – “vigor imperante”. Em uma leitura livre, diria que a physis não é a coisa, mas o vigor: o florescer da rosa, o cantar de todo o canto, o dar-se de todo ser. Somente a physis, assim compreendida, pode ocultar-se! Quem já deteve o vigor que emerge? Apreende-se, sem dúvida, uma rosa, mas não o seu florescimento.

157. Porque a physis é o vigor (e não propriamente a coisa), posso dizer que physis e polemos são o mesmo. É que a physis não é suave linha que desenha e define, mas turbilhão que dissemina e arrebata. Physis é inauguração e ruptura. Como a explosão de uma fonte do íntimo da terra úmida.

161. Certa vez asseverei: “O asno prefere o feno ao ouro”. Não sei se me entenderam, de forma que hoje quero dizer, dessa vez de forma cômica: “O homem prefere o ouro ao feno!”

163. Somente os que se escondem bem podem se poupar dos aborrecimentos da lei (…) mesmo a natureza busca se esconder das leis que lhe são atribuídas.

177. Há em cada jaula onde pomos coisas prontas uma rota de fuga. Do polemos não se foge porque ele já é a fuga – ele é o injaulável, é o que não cabe em si. O polemos não está presente, ele é onipotente apenas porque brota do que está oniausente.

178. Não há um princípio fundamental na physis. Sempre estive convencido de que a arché não é mais do que o que vemos porque há diferenças de velocidade (uma impressão causada pelo que chamei de efeito Doppler metafísico – fr. 169). O polemos, por outro lado, é nada mais do que uma an-arché.

198. An-arché: não-princípio, mas também não-negação-do-princípio. Um “entre”: ponte sem margens. Há muitos princípios – mas também eles se encontram no mesmo plano. O polemos pare começos. Desde que há armas de fogo por toda parte, quem pertence à humanidade sente que possui uma dignidade de quem impera sobre o mundo – distribui ordem, cerimônia e compaixão. Nenhum império dura porque há sempre outros começos. Não vivemos à sombra de uma arché que, como um relojoeiro perfeito, fez um princípio para acabar com todos os outros princípios – estamos em disputa. Os vermes, os vírus, as baratas e os ratos não se renderam diante da proclamação de vitória humana sobre a animália. Também nossos lapsos, nossos gestos miúdos, os arrabaldes do pensamento ainda resistem ao princípio de humanização do mundo que impomos desde o princípio a quem nasce gente.

199. Escuto falar bastante da natureza como um baú de coisas prontas – como se a ecologia tivesse expulsado a physis. O discurso ecológico é também um discurso imperial – proteger as baleias, e nós decidimos quantas? (Quantos lobos devem continuar existindo? E quantos micos? Quantos pandas? Mas quantos ratos? Quantas baratas? E quais?). A ordem ecológica é uma ordem imperial – em nome de um equilíbrio archétípico. Uma ordem imperial, e não um mandato despótico. Muitas partes do que tanto se chama de natureza des-põe o equilíbrio ecológico. Ao invés da physis, a oikos – a casa que precisa estar arrumada, a casa que tem uma maneira de estar arrumada, que foi feita para estar arrumada. Uma oikos logia, uma oikos nomia: haverá uma mão invisível pairando acima de todas as coisas, capaz de criar, de balancear, de regular tudo. Nós apenas podemos dar uma mãozinha a essa mão de ferro invisível. Em um império ecológico podemos nos sentar ao lado da natureza, transmitir suas leis e atuar assim como um vizir. Entabulamos uma ordem secreta superior e, como os sacerdotes, temos um selo de aprovação dos céus. […]

205. An-arché: não há destino, mas há destinos. Melhor seria pensar nas coisas como emaranhadas em muitas tramas que se enlaçam, uma deságua na outra – um delta de histórias que se misturam, se espelham e se confundem. Como descer um rio inteiro sem fazer barulho (fr. 193), quando não resistimos nossas histórias perdem sua pureza, largam seu destino. Mas não largam totalmente porque confundir-se com alguma coisa não é submeter-se a ela. Quando damos nomes a nós mesmos (como empregado explorado, puta da esquina, velho fanfarrão, esposa exemplar, mãe de três rapazes) gravamos nosso destino em bronze e fazemos barulho no rio quando nos arrastam para longe dele. É que muitas vezes nos confortamos com termos um destino; não queremos outros. Trancamos as portas, as janelas e só respiramos o nosso próprio ar. E o polemos não pode ser prendido, apreendido, compreendido, repreendido. Nem podemos surpreendê-lo deixando-o ao relento do lado de fora do nosso confortável destino. Ele invade o cafofo.

218. Sempre gostei do modo como o céu imenso desampara as paisagens da terra. É o abandono extasiado de um céu sem deus: an-arché.

224. O polemos não é o demiurgo do caos, nem é o demiurgo da ordem. É um demiurgo cego. Meio sem fim. Fabricador de fragmentos, mesmo quando constrói coisas inteiras. Fragmentação em pedaços que não são cacos, são exceções.

225. Resistimos a pensar o desgoverno. Pensar o desgoverno nem é governá-lo. Há muito mais entre o caos e a ordem do que tem pensado estes últimos milênios aflitos.


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